Ícaros

O conhecimento e uso da música, em especial o canto, como elemento curativo do saber está presente entre vegetalistas que além da prática com plantas medicinais também usam cantos de poder chamados ícaros, mediante os quais se comunicam com a dimensão dos seres dos vegetais e suas manifestações de poderes além do limiar do espaço/tempo.

No âmbito das plantas professoras destes cantos a principal medicina usada é a Ayahuasca através de sua ingestão elas mostram estes cantos e outros conhecimentos necessários para a prática. O período de iniciação pode durar desde alguns meses até vários anos; as plantas que ingerem periodicamente fazem com que tenham que fazer jejum e guardar abstinência sexual. Neste aprendizado os seres das plantas se apresentam ao praticante e transmitem a maneira de identificar e lidar com enfermidades, forças prejudiciais, como agir além do tempo e do espaço.

Esta aprendizagem também se faz através da música: os poderes se solidifica e manifestam principalmente através da memorização dos ícaros, cantos que o vegetalista aprende sobre seres das plantas, animais, pedras, lagos, montanhas, etc. durante as mirações produzidas pela Ayahuasca ou em sonhos, além de herdarem alguns de seus “maestros”.

Cada planta tem seu próprio ícaro e é usado para diferentes aplicações, existem ícaros específicos para lidar com determinadas enfermidades ou buscar certas evocações. No processo do trabalho com o vegetal pode se cantar só o ícaro, usar como reforço das plantas medicinais ou cantar também no preparo de uma aplicação da planta. Existe certa hierarquia entre os ícaros e cada praticante possui um principal, que representa a essência de seu poder.

Normalmente o primeiro que se aprende dos ícaros é uma melodia musical que se vai impregnando a memória e essência do vegetalista. Posteriormente durante as cerimônias ou dietas, as letras que formam o conteúdo do ícaro, vão vindo à sua mente por intuição.

O ícaro surge do fundo da alma do praticante e, no princípio pode ser algo sutilmente perceptível conforme o tempo e as cerimônias vão transcorrendo o ícaro vai tomando forma. O mais importante a ter em conta é que ao começar a receber um ícaro tem que deixar o consciente parado e fluir com a energia do momento.

A língua utilizada em alguns ícaros que se cantam é em espanhol e alguns outros tem a letra em quechua, em kokama ou em omagua e até no idioma do vegetalista; se considera que os ícaros cuja a letra esteja em língua indígena tem mais poder. Alguns vegetalistas cantam uma mescla das três línguas.

Geralmente às letras se atribuem as características de um animal para alcançar o efeito que se busca através do ícaro específico deste animal. A melodia por si mesma tem poderes curativos. A letra deve ser claramente inteligível para que todos conheçam o ser e o animal que se evoca.

Há tantos ícaros quanto praticantes . Cada um tem seu ícaro pessoal. Ele é o que confere a especificidade do poder. Existem ícaros para começar a cerimônia. Ícaros para proteger o lugar. Ícaros para cobrir com um “manta de piedra”; coisa que fará que as forças contrárias externas não interfiram na prática. Ícaros para chamar a cada planta. Ícaros para lidar com cada enfermidade.

O ícaro auxilia também ao vegetalista entrar em êxtase e expandir a consciência utilizando a força da Ayahuasca que permanece em seu organismo constantemente desde a primeira vez que tomou a Ayahuasca, caso não tenha acesso ao chá para ingerir naquele momento.

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